quarta-feira, 20 de março de 2019

Nem todas as histórias de amor precisam de ser trágicas - Conto de Letícia Brito



Julieta estava estafada depois de um longo dia de trabalho. Exercia um cargo de contabilista numa multinacional e a sua rotina era marcada por números e contas infindáveis.

Mas ainda assim, preferia a agitação do escritório à solidão da casa vazia que a esperava imaculada ao fim do dia.

Desde que ele partira que aquela casa deixara de fazer qualquer sentido na sua vida. Tinham-na comprado e decorado juntos. Tinham planeado tudo ao ínfimo pormenor. Mas agora, ela estava sozinha e, a cada novo dia, se tornava mais doloroso enfrentar as madrugadas no vácuo daquela casa. 

Queria vendê-la, porém, aquele espaço era o sonho de uma vida a dois do qual ela não se conseguia desfazer.

Abriu a porta e olhou vagamente em redor da sala. Um sofá de pele ao centro fazia as honras, quadros caros adornavam as paredes brancas e um tapete persa jazia sobre o chão de linóleo.

Descalçou os sapatos de verniz e caminhou até ao sofá. Sobre a mesa de vidro mesmo em frente, uma caixa de sapatos estava entreaberta, despertando-a do transe habitual que não conseguia evitar sempre que adentrava pela porta.

Aninhou-se junto ao sofá e riu pensando, tanto dinheiro gasto nesta porcaria e eu prefiro sempre sentar-me no chão. Puxou a manta do sofá para si e cobriu as pernas, enquanto se acomodava. Ainda ponderou ler um livro, dos muitos que enchiam a sua estante, talvez isso a fizesse ignorar o dia que estava marcado no calendário. Mas ler não a ajudaria a esquecer.

O número sete pairava na sua mente, lembrando-a de que ele fora embora e deveria estar ali.

Pegou numa caneta e retirou da caixa um caderno de capa dura e folhas já amarelecidas, onde começou a rabiscar uma carta.

Espero que no céu o tempo esteja mais agradável do que por cá. Há uma semana que chove sem cessar. Mas o que é uma semana de chuva comparada com toda a desordem que deixaste no meu peito, Gabriel?

Juro que já pensei em largar tudo, só para ir ter contigo. É certo que já sabíamos que irias embora, logo que te diagnosticaram o aneurisma, mas será que o céu estava assim tão desesperado para te roubar de mim?

Eles dizem que está na hora de seguir em frente, contudo, seguir em frente não faz sentido se eu souber que quando chegar ao meu destino, não te encontrarei de braços abertos para me receber.

Guardo o arsénico na gaveta junto à cama porque estou cansada e prestes a desistir. Mas se me visses não estarias orgulhoso e, por ti, talvez hoje eu seja capaz de o atirar para o lixo.

O meu coração martela desenfreadamente no peito, como se desejasse escapar-se da caixa torácica. E eu choro.

Penso em todas as histórias de amor que já foram escritas e vividas. Eu sei que não gostarias de me ver nestes prantos e, por ti, talvez hoje eu pondere dançar na chuva. Tu, que sempre gostaste de ver os meus cabelos molhados…

Enquanto Julieta escrevia, a chuva amainou e uma fresta de sol perpassou a cortina da sala. Julieta levantou-se, cambaleando, e aproximou-se da janela. Hesitou, pensando se deveria ou não, puxar a cortina.

Julieta não sabia ainda o que era suposto fazer para seguir em frente, no entanto, sabia que nem todas as histórias de amor precisam de ser trágicas.

Ele partiu, mas ela ainda cá estava e, seguir em frente, talvez se resumisse à capacidade de puxar a cortina e deixar o sol entrar. E pela primeira vez em dois anos, ele entrou. Tal como era suposto.

Letícia Brito

Sobre a autora
Letícia Brito nasceu em 1996. Apaixonou-se pela escrita de contos infantis aos 9 anos e logo começou a ter as suas histórias publicadas num jornal.
Entre 2015 e 2017, ganhou dois prémios literários, publicou o seu primeiro romance Nos Braços do Vagabundo, participou em antologias poéticas e atingiu mais de 94 mil visualizações no seu blogue pessoal onde regularmente partilha críticas literárias.
Em setembro de 2018 regressou ao romance com a história de Luísa, “O Dia em que Chegaste”, mas antes mesmo de o ano findar, já tinha concluído uma nova história.
Não sabe bem quem é quando não escreve e, talvez por isso, já tenha iniciado a escrita daquele que, quiçá um dia, possa ser o seu quinto romance.
Atualmente escreve contos e crónicas para o jornal Gazeta de Paços de Ferreira.


Passatempo Exclusivo Facebook - Porto Editora


Passatempo em vigor até às 12h00m do dia 22.
Participe aqui.
Boa sorte!

O meu lugar mais feliz - Carolina Cruz


Escolhi este lugar. Aqui, longe de tudo e de todos, procuro a verdade de um amor eterno: os livros.

Junto deles posso sonhar, criar, viajar, fugir desse mundo rude, dessa gente sem valores, das pessoas que falam dos outros como se fosse a sua própria vida, espezinham, torturam... 

Visto uma roupa confortável, puxo a manta e o chá, fujo do que não me acrescenta e, então, embrulho-me em sonhos. Sou livre, leve, solta!

Todos os seres humanos comuns acham-me estranha, mas todos os livrólicos dependentes entenderão que ler é mais que um passatempo, é um escape, uma paz de espírito.

Aqui eu voo, eu rio, eu choro, entro na vida das personagens com sede de mais, de ansiedade (boa), de alegria.

Os livros são a minha força, o meu agarrar e o meu viver. Enquanto leio não sou eu, não há problemas nem há pessoas que me magoam, por isso deito-me aqui, no sofá quentinho, onde o meu aconchego é uma manta de histórias.

Carolina Cruz

Sobre a autora
Carolina Cruz, nascida a 27 de julho de 1992, natural da Lousã, Coimbra.
Licenciada em Animação Socioedutiva, pela Escola Superior de Educação de Coimbra.
Autora do blogue "Gesto, Olhar e Sorriso" desde 2009, desde cedo que escrever é não somente uma paixão, mas um sonho, tendo editado o seu primeiro livro "O coração vive de sorrisos" em 2018.

Passatempo 7º Aniversário - Nuno Nepomuceno


Estamos a festejar o aniversário do blogue oferecendo livros aos nossos leitores. Com o magnifico apoio do escritor Nuno Nepomuceno, temos para oferecer um exemplar do livro A última ceia. Para se habilitar a ganhar este livro, só tem de responder correctamente às questões que se encontram no formulário e ler com atenção as regras do passatempo. 

Regras do passatempo:

O passatempo é válido de 20 de Março até às 23h59m de 26 de Março. 
Só é válida uma participação por pessoa e residência, de residentes em Portugal Continental e Ilhas.
Ser seguidor do blogue Manta de Histórias: www.mantadehistorias.blogspot.pt
(Para ser seguidor, basta clicar em "aderir a este site" na barra lateral direita do blogue.)
Partilhar publicamente o passatempo.
Múltiplas participações serão automaticamente anuladas.
O vencedor será sorteado aleatoriamente (random.org) pela administração do blogue, contactado por e-mail e o resultado será anunciado no blogue.
O blogue e o escritor não se responsabilizam por eventuais extravios no envio do livro por correio.
Boa sorte!


terça-feira, 19 de março de 2019

4 leituras de Fevereiro


 

O mês de Fevereiro correu-me menos bem que o mês anterior. Este mês as leituras ficaram-se entre o romance e o thriller.

Já é sabido que está a decorrer o desafio de leitura 2019 (saber mais aqui) e que todas as leituras feitas, estão a contar para o mesmo. 

Em Fevereiro, infelizmente, só consegui ler uma autora portuguesa, Carolina Cruz, leitura essa que entrou também para o desafio Lê Português (saber mais aqui).

Estas foram as minhas 4 leituras: 

🌟🌟🌟

🌟🌟🌟

🌟🌟🌟

🌟🌟🌟


Já perceberam pelas classificações anteriores, que este mês não houve um livro que se tenha destacado mais. Aconselho-vos, na mesma, qualquer um destes thrillers e romances que li.

Boas leituras!  

[A minha Opinião] Um Fio de Sangue


A minha primeira leitura de Março é uma estreia, na escrita escrita de Ann Yeti, autora portuguesa. 

Posso dizer-vos que este livro, com um pouco mais de uma centena de páginas, foi uma agradável surpresa. 

Para quem lê a sinopse do livro, pouco descobre sobre ele. Por isso parti à aventura, sem ter ideia do  tipo de história que ia encontrar neste livro. 

As primeiras páginas lidas, deixaram-me muito satisfeita. Gostei logo do tipo de escrita da autora. Ann Yeti tem um cuidado com a escrita que é logo notório. O gosto pelas palavras está lá. Gostei da introdução da história e de como, aos poucos, me foi apresentando as personagens. 

Esta história é centrada em duas personagens: Joana e Tomás. Ambas com personalidades bastante diferentes, mas com algo em comum, um passado traumático, que os condiciona e os faz não baixar a guarda, com receio de serem magoados. Nas voltas que a vida dá, Joana e Tomás cruzam-se e entram num jogo perigoso. As consequências nem eles sonham quais serão. 

Apesar de ser um livro pequeno, achei que a autora construiu personagens cativantes. Por uma senti empatia, já a outra mexeu-me com o sistema nervoso. Deu para construir uma imagem das suas personalidades, dos seus anseios e receios. Os capítulos não são muito longos, por isso é fácil entrar na história e deixar-se agarrar por ela. Existem algumas passagens sensuais, que no meu ver foram bem escritas pela autora, e que demonstram bem o cuidado que tem na escrita. As notas de rodapé, são outro pormenor que demonstra cuidado e preocupação com o leitor. 

Quanto ao final do livro, foi inesperado. Não estava nada à espera daquele desfecho. Por um lado até o compreendi, por outro, talvez quisesse outro fim para esta história. 

Foi uma leitura que me deu muito gosto fazer. Espero que a autora nos brinde, muito em breve, com mais um livro da sua autoria. 

Um livro que recomendo.  

Boas leituras!  

🌟🌟🌟

segunda-feira, 18 de março de 2019

Desafio de leitura Manta de Histórias 2019 - Ponto de situação


Olá leitores! 

Venho actualizar o desafio, com as leituras que realizei no mês de Fevereiro.

O meu mês de leituras, não correu lá muito bem. Li só 4 livros. Mas como se costuma dizer, é melhor ler pouco que nada.

Deixo-vos aqui os livros lidos e as categorias onde se inserem:

- Livro escrito por uma mulher

A Fórmula do Amor - Livro vencedor do Goodreads Choice Awards 2018

O Coração Vive de Sorrisos - Um livro de capa vermelha

A Deusa da Vingança - Um thriller


E aqui estão as leituras feitas para o desafio. Leram algum deles? Como está a correr o vosso desafio?

Boas leituras!